Caneca.

Há dias que me sinto abandonada, suja, sem serventia para ninguém. Há outros que sou tão lembrada, que sinto aconchego, sou tocada pelo calor. Um café para acompanhar um bolo, um chá para acalmar os ânimos, um brinde solitário ou a dois, estou aqui em vários momentos. Eu sou divertida, eu sei, pois fui criada para ser assim. Tem outros que foram criados sem personalidade, sem uma característica, apenas mais um no meio de tantos iguais. Eu me destaco. Fui criada para ser presente em todos os aspectos da palavra.
Meu rosto tem estampado uma alegria, um momento descontraído, um sorriso solto, mergulhado em paixão e sutileza, carrego tudo isso em mim. Sei que posso ser algo que cuida, que faz com que a alma fique sossegada nos dias aflitos, apenas com alguns goles de uma bebida favorita. Amo tudo que é quente, principalmente nesse inverno rigoroso. Gosto de acalentar e ser acalorada, sinto-me tão útil assim.
Às vezes fico à deriva por um ou dois dias, às vezes nem isso, mas sei que não é fácil para ninguém, nem para mim. Às vezes carrego marcas de outros dias, marcas que não quiseram sair de mim, ser maculada assim por vezes acaba deixando um registro quase que eterno. E ser tão efusiva e gostar do calor, gostar do gole acalorado que posso proporcionar às vezes, é brincar com o perigo. Meu corpo encarquilha, envelhece como qualquer outro, tenho rachaduras que não foi apenas o tempo que causou, e sim, por quem me toca, me usa diariamente.
Minha vida, útil, pode ser raptada por um instante, apenas com um esbarrão, uma mão frouxa, um escorregar de uma mão ensaboada, o fim sempre pode chegar, sem avisar. Também posso ser aposentada, deixada de lado, posso ser retirada do dia a dia por não estar tão bonita, nova, mas sei que sempre serei útil até que o outro diga o contrário. Nesses dias tão atuais, ser uma caneca ou ter um coração, é quase que ter o mesmo destino.




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