Das mãos (fazer o tempo)

Era final de abril de 2022, Beatriz havia chegado mais cedo que eu no trabalho, entrou na minha sala e deixou uma sacola de papelão, sacola de um restaurante favorito dela. Quando abri, para minha surpresa, tinha um pombo feito de crochê.
Eu já sabia que Beatriz fazia crochê, em uma de nossas conversas, mostrou-me seu antigo negócio, era uma espécie de brechó e ateliê (Bia Brechó e Atelier), onde vendia roupas e bonecos de crochê (amigurumi) que ela mesma fazia.
Quando começamos a namorar e, principalmente, quando fomos morar juntos, o tempo do crochê foi emergindo aos poucos. Havia uma habilidade não apenas manual, mas uma habilidade de crocheteira do tempo.
Assim que pegava todo seu acervo de linhas e agulhas, o tempo mudava, dali fazia do tempo uma morada irregular; ora dominada, ora dominadora: uma dança simetricamente tortuosa.
Os movimentos preenchiam a sala: linha escorregando pela agulha, leve fricção entre os dedos e o fio: faz anel mágico, laçar-puxar, puxar-laçar, ponto a ponto, ponto baixo, ponto alto. Tudo como se fosse uma espécie de dança repetitiva: a agulha entra no ponto, o fio é laçado e puxado de volta, criando um novo laço. Retorno.
Desde quando a conheci, soube que Beatriz gostava das linhas, dos fios, dos novelos, das agulhas, de poder desenrolar o caos em formas, utilizava-se disso para saborear a vida mais suavemente.
Já ouvi muito Beatriz falar sobre o tempo, como tudo é demorado, como tudo se torna lentificado. A vida dela é atravessada por uma pressa, por um futuro que atropela o presente e culpa o passado.
A vida é movimento para Beatriz. Mas o tempo material que incomoda, tira seu sono. Uma das coisas que amo dela, é a sua ambivalência, suas contradições, sempre me atraíram. Ela pode passar horas no crochê e nada mais importa, o tempo é adormecido.
Beatriz é uma grande artista do tempo, não há pressa em sua arte. Sua alma de palhaço: ora bufona, ora melancólica, ora romântica, é usada para crochetar, para dissolver todo o peso do mundo, para guardar todo o segredo de uma cidade dentro de cada ponto baixo, para deter toda a felicidade de uma lágrima antiga dentro de cada ponto alto e, no miolo, no anel mágico, guardar a esperança de uma vida a dar contorno em si.
Sua arte é subitamente mágica. Sua avó, como quem carrega um segredo imenso, foi quem ensinou-a. A arte esotérica que consegue afundar o tempo e silenciá-lo, que faz desabrochar todo e qualquer sentido de uma vida quando está a pôr nas mãos, linhas e agulha a traçar movimentos que rabiscam o ar, como quem desenha os mistérios de uma vida.
Toda vez a espio com olhar baixinho para que eu possa apreender toda a beleza em miudezas de movimentos. A vejo se conectar a cada movimento, a cada repetição: se conectar ao sofá, à lâmpada do lustre, às paredes, à janela, ao som que vem do lado de fora, ao chão, se conectar à linha, à agulha, à ideia de peça, se conectar ao tempo e ao luar.
Seu movimento ritmado e fluido, sequencialmente meticuloso, com árduas e suaves lançadas e puxadas, onde a cada ponto se faz transformar o fio num tecido, faz nascer toda uma vida desenhada e sentida.
Hoje percebo que Beatriz consegue parar o tempo quando desenha suas histórias e brincadeiras com linhas; a vejo de manhã brincar de esconde-esconde com o tempo, à tarde de pega-pega, à noite coloca simetricamente o tempo soturno em seus braços e o faz adormecer silenciosamente à sua memória.
Hoje percebo que Beatriz é delicadamente apressada.




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