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Sobre saudade
Há dias em que acordamos para o deleite do não saber, do inesperado já acontecido, da invenção do novo. Há dias em que tropeçamos no paralelepípedo da saudade — aquele concreto daquela rua já conhecida, por onde muitas vezes passamos, andamos. E, de repente, sentimos nosso corpo — (trans)passado — pelo passado (atravessado), cheio de vontade de um infinito (des)conhecido. Por que todo gosto de outrora tem vontade própria e quer se arquear sob o poente, como se fosse morar den
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há 5 dias1 min de leitura


Caneca.
Há dias que me sinto abandonada, suja, sem serventia para ninguém. Há outros que sou tão lembrada, que sinto aconchego, sou tocada pelo calor. Um café para acompanhar um bolo, um chá para acalmar os ânimos, um brinde solitário ou a dois, estou aqui em vários momentos. Eu sou divertida, eu sei, pois fui criada para ser assim. Tem outros que foram criados sem personalidade, sem uma característica, apenas mais um no meio de tantos iguais. Eu me destaco. Fui criada para ser prese
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3 de out.2 min de leitura


Poder de uma ligação
Se você não trabalha com telecomunicações (cada vez mais raro devido aos "robôs"), falar ao telefone (celular) é algo menos comum. Hoje, as trocas de mensagens de texto e o hábito de gravar e enviar áudios se tornaram mais rotineiros. Falar com alguém de maneira quase "à moda antiga" é, praticamente, como escrever e enviar uma carta — algo quase vintage. O tempo era outro quando precisávamos escrever cartas. A espera era atravessada pelo tempo de ir até o local para depositar
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26 de set.3 min de leitura


Das mãos (fazer o tempo)
Era final de abril de 2022, Beatriz havia chegado mais cedo que eu no trabalho, entrou na minha sala e deixou uma sacola de papelão, sacola de um restaurante favorito dela. Quando abri, para minha surpresa, tinha um pombo feito de crochê. Eu já sabia que Beatriz fazia crochê, em uma de nossas conversas, mostrou-me seu antigo negócio, era uma espécie de brechó e ateliê (Bia Brechó e Atelier), onde vendia roupas e bonecos de crochê (amigurumi) que ela mesma fazia. Quando começ
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25 de set.3 min de leitura


Casa
No calendário, constava sete de julho de 1999. O relógio vetusto, suspenso na parede da cozinha, marcava dez para as quatro da tarde. O céu queimava lentamente, como a cinza de um cigarro esquecido num cinzeiro de cerâmica desgastada. Ainda sinto o mesmo cheiro vindo do jardim bem cuidado. Estou na mesma casa de madeira rubra, com o telhado alaranjado que se funde ao limo, em contraste com as copas verdejantes das árvores. Vivo neste dia há vinte e sete anos. Não sei por quê,
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24 de set.2 min de leitura


Entre o absurdo e o algoritmo: desejo, acaso e criação de mundos
Quando aquilo que sustentava a vida deixa de funcionar Certo dia, em algum momento da vida, alguma coisa deixa de funcionar. Não necessariamente quebra. Não some. Não padece. Às vezes, continua exatamente no mesmo lugar de antes. A casa continua ali, sendo a mesma. O trabalho, puxado, continua sendo o mesmo trabalho puxado. As pessoas continuam ali. A rotina se desenrola conforme anteriormente. Você desperta na sua cama de sempre. Toma seu café. Sai de casa. Trabalha. Volta.
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24 de set.11 min de leitura


O instante como acontecimento ou como haicai: diferença, repetição, cuidado de si.
O que é UM haicai? Poderíamos partir de um ponto conceitual: o haicai é um pequeno poema de origem japonesa. Em sua forma tradicional, é composto por três versos. Sua história, porém, é anterior ao que hoje compreendemos como haicai. O poema fazia parte de formas colaborativas, como o renga, nas quais vários poetas participavam da composição de uma obra mais extensa, cada um contribuindo com uma parte. Foi com o mestre Matsuo Bashô (1644–1694) que o hokku, a estrofe inicial d
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20 de set.8 min de leitura


Como nó de crochê
Certa tarde, eu e a minha esposa trabalhávamos em frente ao notebook, eu, escrevendo ou relendo algum texto, Beatriz, convergia sua atenção para sua escrita acadêmica, ambos tínhamos nossos olhares para um equipamento eletrônico, uma ferramenta que estava a nos servir. Era uma tarde que o calor se desenrolava de maneira inesperada com iluminação suficiente para não precisar ligar a lâmpada, mas sim, o ventilador de teto. Na sala ainda começavam a surgir mosquitos quase vera
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18 de set.6 min de leitura


O esquecer de uma criança
Certa vez, minha esposa me compartilhou uma informação que me deixou a refletir, então decidi compartilhar (claro, com autorização dela). Ela, como tantas e tantas outras pessoas, não se lembra de parte de sua infância. Antes dos 10 anos, não há um registro fiel, a não ser por fotografias e conversas com familiares. Esse tempo morreu para ela e tantas outras pessoas? Esse tempo é ‘morrível’? Como esse tempo morre em nós? Pode-se não lembrar da infância, pode haver a tal amnés
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17 de set.5 min de leitura


O esgotamento como condição existencial contemporânea
Abordar o esgotamento contemporâneo é pensar para além de um simples estado psicológico individual, e muito menos reduzi-lo a uma rotina excessiva de trabalho. Trata-se, antes, de uma condição existencial produzida por uma forma histórica específica de organizar a vida, o tempo, o desejo e a liberdade. Essa condição é descrita por Byung-Chul Han em Sociedade do cansaço, onde já não há a coação de um poder externo explícito, mas a captura do sujeito por um imperativo interno
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16 de set.3 min de leitura


Burnout, brownout e a crise do sentido
O despertador soa. O sol toca a janela do quarto, e a luz atravessa os pequenos furos, escapando por onde a cortina já não consegue conter o dia. É, mais uma vez, outro dia. Os olhos despertam entreabertos, tortuosos, ainda sob o cansaço da noite, cujos sonhos, por vezes, sequer deixam vestígios na memória. Em outros momentos, o corpo desperta dilacerado, incapaz de repousar em paz, como se a rotina atravessasse cada fibra muscular, cada centímetro da alma, e ali instalasse u
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14 de set.4 min de leitura


Tempo, corpo e clínica psicológica
Tique-taque, tique-taque. Nas engrenagens de um relógio preso no passado ou de outro mergulhado em tecnologia, ou melhor, em instantes de futuro ou atualizações de relógios inteligentes. Tique-taque. Relógio preso no pulso, relógio em cima da cômoda da sala ou relógio do computador. Tique-taque cronometrado. Entre cinquenta minutos e uma hora, há um tempo que não se pode contabilizar nem capturar dentro de uma sessão de psicoterapia. Esse tempo escapa. Escorrega. Transborda
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14 de set.4 min de leitura
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