Entre o absurdo e o algoritmo: desejo, acaso e criação de mundos

Quando aquilo que sustentava a vida deixa de funcionar
Certo dia, em algum momento da vida, alguma coisa deixa de funcionar.
Não necessariamente quebra. Não some. Não padece. Às vezes, continua exatamente no mesmo lugar de antes.
A casa continua ali, sendo a mesma. O trabalho, puxado, continua sendo o mesmo trabalho puxado. As pessoas continuam ali. A rotina se desenrola conforme anteriormente. Você desperta na sua cama de sempre. Toma seu café. Sai de casa. Trabalha. Volta. Dorme. No dia seguinte, tudo começa novamente mais uma vez.
Mas algo mudou.
Talvez tenha sido por um momento, um instante, mas algo aconteceu. Um raio de segundo. Um estalar de dedos. E aquilo que antes parecia suficiente já não é.
O que antes organizava seus dias já não consegue organizá-los da mesma maneira. Os mesmos gestos continuam sendo realizados, mas já não produzem o mesmo efeito. Você continua fazendo, mas já não sabe exatamente por quê.
É estranho porque, aparentemente, nada aconteceu.
O mundo não mudou.
Você é quem já não consegue habitá-lo da mesma maneira.
Há um movimento no humano que busca uma certa familiaridade, uma vida sossegada, mas que, no entanto, sempre estará, possivelmente, mergulhado em questionamentos reflexivos sobre a própria existência. Assim, corrobora para um ambiente onde as certezas não sejam tão firmes. Onde o encontro com o absurdo seja mais facilmente visível.
O que seria esse absurdo?
Absurdo é o que foge à racionalidade. Tudo que não se pode engendrar numa certa normalidade. Absurdo seria esse rompimento da lógica.
Mas, para Camus, não há como esse absurdo pertencer ao homem ou ao próprio mundo. Está mais para uma ligeira tensão entre o homem e o mundo, no encontro.
Talvez seja nesse pequeno deslocamento que o absurdo apareça.
Camus escreve que “numa esquina qualquer, o sentimento do absurdo pode bater no rosto de um homem qualquer”. E talvez seja justamente isso que torne o absurdo tão desconcertante: ele não precisa anunciar sua chegada. Não precisa de uma grande tragédia. Pode surgir no meio da rotina, em uma manhã qualquer, quando aquilo que sustentava nossa relação com a vida deixa de responder.
É como se uma pergunta surgisse onde antes havia apenas uma certeza.
Para que tudo isso?
E talvez essa pergunta seja mais perigosa do que parece.
Porque, quando aquilo que dava sentido à vida deixa de funcionar, não perdemos apenas uma resposta. Perdemos também, por alguns instantes, a forma pela qual sabíamos viver.
Camus utiliza Sísifo para descrever, de certa maneira, nós mesmos. Na mitologia, Sísifo foi condenado eternamente pelos deuses a subir uma pedra até o alto da montanha, uma pedra grande, pesada, exigindo um grande esforço para levá-la até o alto. E, quando chega lá, ela desce rolando até embaixo, obrigando-o a repetir, novamente e novamente, essa tarefa sem sentido aparente.
Nada mais é Sísifo do que nós mesmos.
Acordamos. Tomamos café. Vamos ao trabalho. Voltamos para casa. Dormimos. No dia seguinte, tudo começa novamente.
Até que certo dia enxergamos o absurdo da vida.
Em algum momento de sua vida, em um raio de instante, como um estalar de dedos, você já se deparou com aquilo que dava sentido à sua vida e, de repente, percebeu que aquilo havia parado de funcionar, deixado de cumprir seu papel?
Esse “de repente” pode ser, às vezes, provocado por uma perda, uma doença, um término, uma mudança de trabalho ou simplesmente por uma manhã qualquer, em que aquilo que organizava a vida deixa de organizar.
Não é tão simplório.
Não é apenas algo que vai embora. É aquele sentido que sustentava nossos gestos, nosso ser, que se dilui. O que antes justificava o esforço agora já não o faz.
No entanto, tentamos. Repetimos os mesmos movimentos e nada. Não há mais o mesmo sabor como antes. Perdeu-se ali o sentido.
Esse disparate, esse flash, esse insight, esse átimo de segundo, esse instante que Camus chamaria de encontro com o absurdo não acontece necessariamente quando descobrimos que a vida não possui sentido. Não necessariamente aquilo, de maneira objetiva, perdeu o sentido. É porque a relação entre a nossa busca por significado e o silêncio do mundo rompe-se.
O mundo ainda é o mesmo mundo. Apenas nós já não somos os mesmos. Já não conseguimos habitá-lo da mesma maneira.
Tudo que era familiar agora já não parece mais. As coisas continuam lá, existindo. No entanto, já não respondem às perguntas. As respostas não parecem se encaixar mais com as perguntas.
Esse instante pode ser chamado de absurdo.
Esse encontro.
O absurdo, a revolta e a criação
No livro O Mito de Sísifo, Camus expõe uma questão fundamental que aparentemente é simples e, ao mesmo tempo, terrível: se a existência não possui um sentido último, por que continuar vivendo?
A pergunta sobre o suicídio não aparece como uma questão meramente isolada, mas como um certo limite de uma experiência: o que fazemos quando já não conseguimos encontrar no mundo uma razão suficiente para continuar?
Sem recorrer a uma resposta que elimine a contradição, o homem absurdo permanece diante dessa experiência sem muletas.
E, ao contrário do que possa parecer, esse homem não resolve o absurdo.
Esse homem diante do absurdo não tenta transformar o silêncio do mundo, o “dar de ombros” ou a indiferença do mundo em uma nova certeza.
Ele permanece em pé diante dele.
E talvez seja justamente aí que comece a revolta.
Essa revolta não configura simplesmente uma oposição ao mundo para Camus. É, em primeira instância, um ato de continuar vivendo sem garantia última de que a vida possui um significado anteriormente criado. Aqui, a existência é sustentada mesmo sabendo que ela não terá uma resposta, uma justificativa definitiva.
Camus tem uma frase, em O Mito de Sísifo, que, para mim, é importante nesse contexto:
“Um pouco de pensamento afasta da vida, mas muito pensamento, retorna a ela.”
Nesse pensamento há um movimento.
Pensar pode nos afastar da vida porque o pensamento pode ruir nossas certezas, aquelas que eram nossas muletas. No entanto, em contrapartida, pode existir um ponto onde o pensamento, levado até suas últimas consequências, faça justamente o contrário: nos dê a vida novamente.
Não aquela vida como se chegássemos à conclusão final, mas aquela vida como algo que podemos experimentar.
Nesse ponto, não se busca uma resposta para a existência. Busca-se o que fazer diante da ausência dessa resposta.
É onde o criador aparece.
“Pensar é, antes de mais nada, querer criar um mundo.”
Albert Camus, O Mito de Sísifo.
E a criação pode ser uma resposta ao absurdo, a esse encontro que nos tira do eixo, que derruba nossas certezas.
Mas longe de ter uma finalidade de preencher definitivamente o vazio, talvez a criação aconteça justamente porque o criador sabe que sua obra é finita e irá se extinguir.
“Criar é também dar uma forma ao destino.”
Albert Camus.
O destino nunca mudou.
Ele continua sendo a morte, o desaparecimento, a finitude. Nada vence o tempo, nem a obra. Não há nenhuma garantia de permanência aqui. E, mesmo assim, cria-se.
Não se trata de acabar com o vazio, mas de dar possibilidade de criar dentro dele, “dar suas cores ao vazio”.
Trabalhar.
Escrever.
Pintar.
Pensar.
Amar.
Construir.
Inventar.
Tudo isso pode acontecer sem a promessa de eternidade.
No entanto, criar nessa condição não será “para nada”. Não é que criar aqui não terá a devida importância, não terá um “valor”. Significa que sua importância não dependerá de uma finalidade absoluta que venha de fora da própria existência.
A lógica é: criamos mesmo sabendo que a criação pode desaparecer.
A partir disso, quero tomar uma espécie de desvio, mas ainda tentarei permanecer dentro desse pensamento que costurei até o momento, com retalhos e linhas cegas.
Desejo, encontro e produção
Nesse ponto, se pensarmos em Deleuze e Guattari, por exemplo, seus pensamentos produzem um desvio dentro de Camus.
Se temos, em Camus, uma pergunta central que é como viver quando o mundo não oferece um sentido último, Deleuze e Guattari nos perguntariam outra coisa:
O que podemos produzir quando aquilo que existe já não é suficiente para aquilo que estamos vivendo?
Essa pergunta muda o problema.
Temos que nos resguardar no seguinte: o desejo não é simplesmente falta para Deleuze e Guattari.
Uma determinada concepção do desejo, presente no pensamento platônico e posteriormente desenvolvida por diferentes tradições filosóficas, estabelece uma relação entre desejar e aquilo que não se possui. No Banquete, por exemplo, o desejo aparece relacionado àquilo que se busca por não se possuir plenamente. É a partir dessa tradição que se pode compreender uma das formas de pensar o desejo como falta ou como busca por aquilo que está ausente.
Deleuze e Guattari questionam justamente esse modo de compreender o desejo: para eles, o desejo não se define pela ausência de um objeto, mas pela produção.
Ao desejo não falta algo que precisa ser preenchido; ele produz conexões, relações, agenciamentos e modos de existência. Desejar, portanto, não é simplesmente buscar aquilo que nos falta, mas produzir realidade.
Em suma, desejar não é possuir um vazio dentro de si que precisa ser preenchido por alguma coisa exterior.
Esse desejo produz relações, encontros, caminhos, obras, pensamentos, territórios e modos de existência.
Ele não está parado diante de um mundo completamente pronto. Ele é ativo. Ele participa da produção do mundo.
Talvez, com ressalvas, a frase de Camus, “pensar é, antes de mais nada, querer criar um mundo”, possa encontrar em Deleuze e Guattari uma espécie de prolongamento.
Pensar e desejar abandonam seus movimentos com a finalidade de descobrir aquilo que já estava escondido e, então, passam a ser forças de criação.
Às vezes, não queremos aquilo que já conhecemos.
Por acaso, encontramos alguma coisa que nos faz desejar aquilo que ainda não tínhamos noção do que queríamos, ou que poderíamos desejar.
Uma música.
Um livro.
Uma pessoa.
Uma conversa.
Uma cidade.
Uma obra.
Uma ideia.
Um acontecimento.
Alguma coisa nos encontra antes mesmo de sabermos procurá-la. E talvez seja justamente aqui que o acaso apareça.
Porque aquilo que nos encontra não estava necessariamente previsto. Não estava necessariamente sendo procurado. Não era necessariamente uma resposta para uma pergunta que já possuíamos.
Foi um encontro.
Foi o acaso.
Foi aquilo que nos fez pensar.
Foi aquilo que nos fez desejar.
Foi aquilo que, de alguma maneira, produziu em nós uma possibilidade que ainda não existia.
E é justamente nesse ponto que o algoritmo começa a se tornar um problema.
O algoritmo parece fazer o movimento contrário.
O algoritmo e a captura do possível
Pensemos no nosso dia a dia. Algo acontece diferente hoje. Há anos uma certa empreitada vem sendo cada vez mais impregnada em nossas vidas. Tecnologias. A maior parte de nossas experiências rotineiras está sendo permeada por máquinas que são capazes de prever comportamentos. Ou “introduzir novos”.
O algoritmo observa aquilo que fazemos, registra nossas escolhas, identifica regularidades, os nossos padrões. Somos bichos de hábito e, a partir disso tudo, ele tenta antecipar aquilo que faremos em seguida ou queremos fazer.
Você assistiu a determinado vídeo. O próximo aparece. Você ouviu determinada música. Outra é recomendada. Você pesquisou alguma coisa.
O sistema passa a organizar um conjunto de outras coisas que supostamente deveriam interessá-lo.
A lógica parece simples:
Se você gostou disso, provavelmente gostará daquilo.
E nessa simplicidade da nossa rotina, que mal percebemos os “aceites” que permitem a captação de nossas informações, está escondida uma questão filosófica importante.
Existe, pois, uma grande diferença entre encontrar aquilo que procuramos e ser continuamente colocado diante daquilo que já aprendemos a procurar.
O algoritmo tem, entre outras funções, tornar a vida mais cômoda, mais conveniente, mais ligeira e mais personalizada. E, nesse ponto, há algo importante a se refletir, pois quanto mais há uma personalização, ela mesma produz uma questão:
O que acontece quando o mundo começa a ser filtrado de acordo com aquilo que já somos?
O problema não é que o algoritmo saiba demais sobre nós. Mas já é um problema em si. No entanto, o problema maior, talvez, pode ser que ele passe a saber demais antes de nós mesmos.
Não porque conheça nosso futuro, evidentemente, mas porque calcula probabilidades a partir do nosso passado. Ele conhece nossos rastros. E, a partir dos rastros, constrói antecipações. Há aqui uma inversão interessante.
Voltemos um pouco ao desejo.
Temos um pensamento tradicional a respeito do desejo. Temos a perspectiva sobre o desejo de que ele nos joga para frente, numa direção ao desconhecido. Uma força motriz que nos faz querer, desejar alguma coisa que ainda não temos, como mencionado: como faltante. Procuramos. Experimentamos. Erramos. Encontramos algo diferente daquilo que esperávamos.
Seguindo o pensamento deleuze-guattariano, desejamos através de relações, máquinas, discursos, instituições, imagens, linguagens, corpos e territórios. O que eles afirmam: o desejo é agenciado.
O que isso significa?
O ser desejante não está só. Ele não deseja isoladamente. Ele não vive separado do mundo dizendo “eu quero isso”. Nossos desejos são atravessados por tudo aquilo que nos cerca. E é aqui que o algoritmo trabalha, onde ele habita.
Ele não apenas é criado para responder à nossa vontade, supri-las, mas, sim, ele é participante dessa organização das quais novos desejos poderão aparecer.
E, a partir disso, podemos mergulhar em uma outra questão, não perguntar se o algoritmo controla ou não nossos desejos, mas:
Que tipos de desejo estão sendo produzidos pelos ambientes nos quais vivemos?
Que encontros se tornam possíveis?
Quais deixam de acontecer?
O que aparece?
O que desaparece?
O que é repetido?
O que é antecipado?
E, sobretudo:
o que ainda pode nos surpreender?
No ambiente algorítmico, porém, o desejo pode entrar em um circuito diferente:
eu escolho → a máquina aprende → a máquina prevê → a máquina recomenda → eu escolho novamente → a máquina aprende novamente.
Necessariamente, o sistema não precisa ordenar o que devemos desejar.
Ele pode simplesmente organizar o campo de possibilidades no qual nosso desejo irá circular. Essa diferença é fundamental.
O poder não precisa dizer:
“Você deve querer isto.”
Pode dizer:
“Aqui estão as coisas que, considerando quem você foi até agora, provavelmente vai querer.”
A liberdade não desaparece.
Mas o campo em que ela se exerce pode ser progressivamente organizado. Capturado.
Ele aprende nossos padrões. Reconhece nossas preferências. Observa aquilo que escolhemos, aquilo que assistimos, aquilo que compramos, aquilo em que demoramos alguns segundos a mais.
E então nos oferece alguma coisa. Não qualquer coisa. Algo que provavelmente iremos desejar. É aqui que minha provocação aparece:
O algoritmo é um ataque ao acaso, ao absurdo.
Não porque elimine completamente o acaso, mas porque procura reduzi-lo. Procura antecipar o encontro. Domesticá-lo.
O problema talvez não seja simplesmente que o algoritmo sabe o que queremos.
O problema é quando ele começa a nos oferecer aquilo que ainda nem tivemos a oportunidade de descobrir se queremos.
Porque, se o desejo é produção, talvez exista uma diferença fundamental entre receber aquilo que já sabemos desejar e encontrar aquilo que ainda não sabíamos que poderíamos desejar.
Uma música que o algoritmo sabe que ouviremos não é necessariamente o problema.
O problema começa quando a experiência de encontrar uma música que não procuraríamos é substituída pela experiência de receber continuamente aquilo que corresponde ao nosso próprio histórico.
O algoritmo pode transformar o acaso em probabilidade. O encontro em recomendação. A descoberta em previsão. O desejo em dado. E talvez seja aqui que a questão do absurdo retorne.
Porque o absurdo também é aquilo que nos encontra sem pedir licença.
Uma perda.
Uma doença.
Uma pessoa.
Uma cidade.
Um livro.
Uma obra.
Uma ideia.
Um acontecimento.
Algo que rompe a previsibilidade daquilo que éramos e nos força a pensar. Talvez o acaso seja justamente uma das condições da criação. Não podemos criar aquilo que já conhecemos completamente. Não podemos desejar aquilo que já foi inteiramente determinado antes do encontro. Não podemos pensar aquilo que não nos encontrou de alguma maneira. Por isso, talvez criar seja também deixar espaço para aquilo que não controlamos.
Deixar espaço para o acidente.
Para o encontro.
Para o erro.
Para o desvio.
Para aquilo que não estava previsto.
Porque talvez viver não seja encontrar finalmente o sentido que estava escondido em algum lugar. Talvez seja produzir alguma coisa a partir dos encontros que nos acontecem. E talvez seja justamente por isso que, diante do absurdo, ainda criamos.
Não porque a criação irá vencer a morte.
Não porque finalmente encontraremos uma resposta. Não porque o vazio será preenchido. Mas porque, mesmo sabendo que tudo isso desaparecerá, ainda podemos criar. E, enquanto criamos, alguma coisa acontece.
Alguma coisa que não estava ali antes.
Um mundo.




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