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O esgotamento como condição existencial contemporânea

Foto do escritor: Pensar Rizoma
Pensar Rizoma
16 de set.
3 min de leitura


Abordar o esgotamento contemporâneo é pensar para além de um simples estado psicológico individual, e muito menos reduzi-lo a uma rotina excessiva de trabalho. Trata-se, antes, de uma condição existencial produzida por uma forma histórica específica de organizar a vida, o tempo, o desejo e a liberdade. 


Essa condição é descrita por Byung-Chul Han em Sociedade do cansaço, onde já não há a coação de um poder externo explícito, mas a captura do sujeito por um imperativo interno de desempenho, positividade e autoexploração. Nesse contexto, o cansaço deixa de ser exceção e passa a integrar o próprio funcionamento do sujeito e da sociedade.


Pensar o esgotamento contemporâneo implica situá-lo no campo da biopolítica hodierna. Peter Pál Pelbart aprofunda essa leitura ao demonstrar que não se trata apenas de um corpo cansado, mas de uma vida capturada em sua própria potência. Uma vida encerrada, sem margens para diferenciar-se, criar, errar ou variar. Quando a existência é reduzida à sua esfera utilitária e tudo o que excede a produtividade passa a ser tratado como desperdício, o esgotamento se instala.


Esse processo também pode ser compreendido como uma captura dos fluxos de desejo, conforme o pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Aqui, o desejo é entendido como potência de criação e devir. No entanto, essa força é atravessada pelas máquinas sociais do capitalismo tardio, expressas em metas, métricas, avaliações e performances. Quando já não é possível criar, inventar ou traçar linhas de fuga, o corpo adoece.


O desejo emperra, se encerra, não encontra mais passagem, e é nesse ponto que o esgotamento emerge. Sob uma perspectiva existencialista, especialmente em Sartre, estamos condenados à liberdade e, portanto, somos responsáveis por aquilo que fazemos de nós mesmos. Contudo, na sociedade do cansaço, essa liberdade se apresenta de forma distorcida. Há escolhas constantes, mas elas se dão dentro de uma programação previamente estabelecida, de um roteiro que nos antecede. A vida passa a ser administrada, repartida e controlada, inclusive em sua dimensão mais íntima.


É nesse cenário que o esgotamento se manifesta com maior intensidade, quando já não é possível sustentar o papel que nos foi atribuído, quando a vida se torna insuportavelmente pesada e se distancia de um projeto autêntico de ser. Em Camus, encontramos o conceito de absurdo como o confronto entre o desejo humano por sentido e o silêncio do mundo.


No entanto, na contemporaneidade, esse absurdo se intensifica, pois o silêncio do mundo convive com uma exigência incessante de sentido, entusiasmo e realização. O cansaço hodierno nasce desse paradoxo, não apenas da falta de sentido, mas da obrigação constante de produzi-lo.


Para Camus, a resposta não é a desistência, mas a revolta, compreendida como uma atitude ética diante da vida. Uma recusa em reduzi-la a uma lógica que a empobrece. Essa revolta aproxima-se do que Pelbart chama de política da vida, na qual resistir ao esgotamento significa reabrir a vida à sua potência, permitir que ela volte a se diferenciar, escapar, variar e inventar novos modos de existir.


Não se trata de um simples descanso para retomar o mesmo ritmo, mas da criação de outras possibilidades de vida. No campo clínico, Rollo May compreende que o sofrimento emerge quando a ação do sujeito perde seu vínculo com valores vividos.


Para ele, a ansiedade e o cansaço não são sintomas a serem eliminados, mas sinais de que a liberdade não encontra uma expressão autêntica. Sob essa perspectiva, o esgotamento configura-se como um confronto entre potência e sentido, entre aquilo que a vida pode e aquilo que lhe é permitido viver.


Dessa forma, o esgotamento revela uma crise que se desdobra em três dimensões fundamentais: existencial, ética e política. Ele expõe corpos dilacerados pelo cansaço de sustentar sozinhos o mundo, desejos emperrados e liberdades escoadas. Contudo, como aponta Pelbart, esse esgotamento também pode marcar um ponto de virada, um momento em que as formas habituais de vida deixam de funcionar e abrem espaço para outros modos de existir, menos produtivos, mais intensos e mais vivos.


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