Como nó de crochê

Certa tarde, eu e a minha esposa trabalhávamos em frente ao notebook, eu, escrevendo ou relendo algum texto, Beatriz, convergia sua atenção para sua escrita acadêmica, ambos tínhamos nossos olhares para um equipamento eletrônico, uma ferramenta que estava a nos servir.
Era uma tarde que o calor se desenrolava de maneira inesperada com iluminação suficiente para não precisar ligar a lâmpada, mas sim, o ventilador de teto. Na sala ainda começavam a surgir mosquitos quase veraneios, já há uma semana notamos o crescente aparecimento desses insetos famélicos por espírito.
Então, resolvi, de maneira descontraída e, quase que como um disparate, perguntar qual era o sentido da vida para ela. Por um átimo de tempo, onde desabrochou um silêncio eloquente no ambiente, minha esposa suspirou e seu olhar se arqueou e se perfilou no meio de todo aquele silêncio estrídulo, e então me disse que o trabalho deu sentido à sua vida.
Essa pergunta já foi e, ainda é, tema de terapia, bate-papo, fotografia, filosofias, quadros, entrevistas, poemas, livros de diversos gêneros, filmes, diários, discussão religiosa, suicídio, latidos, programas de televisão, podcasts, videocasts e toda gama de entretenimento e desamparo intelectual.
Esse tema é muito suscetível a qualquer ser humano, como se é a morte. Assim como aconteceu naquela tarde cálida, a pergunta precisou ser afugentada, como se fosse um choro espremido de lágrimas cítricas, como se naquele instante habitasse na minha garganta um apiário, que foi preciso expulsar toda a possibilidade de me ferroar junto com o zunido aterrorizante, um alívio.
Por que essa busca pelo sentido? Aqui faço mais um entretenimento sobre esse rastro da dúvida que nos cerca, aqui faço mais um questionamento sobre essa linha que é, por vezes, difícil de se passar pela agulha.
Uma busca incessante de sentido, certa busca acossada pelo sentido. Parece-me, às vezes, que o sentido seja uma busca final, mais ou menos quando um investigador de polícia vai atrás do bandido atroz que deixa rastros, pistas e, quem sabe, pequenos sentidos para o seu perseguidor fiel continue, até que certo dia, o malfeitor é capturado, chegando ao fim de uma caçada, chegando ao ponto final, dando sentido ao policial todo seu desdobramento.
Qual seria o sentido do recorte da vida do antagonista do policial? Deixar crimes para ser perseguido? Qual o sentido para o investigador incansável? A vida é deliciosamente uma busca por vários sentidos, acredito, que buscar “sentido” poderia ser substituído por buscar “sentir”, estar em movimento com a vida, não determinando o final de algo para poder sentir, mas percorrer a sentir uma vida na proporção que ela vai se desdobrando.
Não descarto o poder do sentido para alguém, ou dessa busca, o poder do sentido pode salvar uma vida ou fazê-la esmorecer lentamente ou subitamente. Esse é um poder do sentido e da arquitetura da busca, que, talvez, seja o caminho mais tortuoso e intangível a tal chegada; o quanto de tempo se esvai com buscas infinitas por algo que não tem fim?
O tempo é relativo para quem sofre, ou melhor dizendo: para quem sente. Sentimos através dos ‘sentidos’ que o corpo tem, logo, através do corpo sentimos o mundo. Buscamos, por muitas vezes, incansavelmente, sentir a vida – sentir emoções, sentir toques, sentir o outro, fazer do sentimento, antes uma tela em branco, uma obra que tenha sentido ou uma obra sem sentido. Buscar não sentir é sentir que se pode sentir, mas que podemos não querer desvelar e aprofundar um suntuoso e abissal sentimento.
E sobre sentir, Beatriz sempre soube que sentia demais, além de carregar uma inconformidade na alma e nos seus olhos caramelos, o maior dos pesos. Tudo era nítido em Beatriz; suas dores, suas felicidades, seus momentos meditativos, momentos que ela entrava num vazio espacial de seu quarto mesmo cheio de busca de si; seus choros, seus sorrisos, sua subserviência, sua autonomia, seus confortos, suas indecisões, suas virtudes, suas paixões, suas desilusões, suas encobertas e descobertas. E quem a olhasse poderia sentir em seu olhar todo o vestígio de tudo que sentia.
Seu tempo era outro no meio de jovens, no meio de adultos. Ela tentou algumas vezes seguir o rastro de como ser alguém que todos esperavam, de tanto arremedo teve medo de seguir tais passos para o abismo, mudou-se de si, mudou-se de endereço, mudou-se para continuar a mudar.
Mas quando mudou de escola, lá em seu ensino médio, ouviu pela primeira vez o que era vestibular, como deveria estudar, como tinha que se sair bem e o que deveria escolher para o seu futuro. Na sua antiga escola não se importava muito sobre o “futuro”, na verdade, a preocupação era bem pouco até com o presente.
Quando mudou, aconteceu essa inversão de realidade, foi atravessada por mundos diversos e futuros diversos – tinha que estar na mesma plataforma aguardando o mesmo trem que passaria para seguir em direção desse futuro já pré-pronto, deveria passar na bilheteria atrás desse bilhete único.
Suas preocupações se tornaram sobre o que faria de seu futuro, acabara de descobrir que o mundo não era apenas viver um dia de cada vez, tinha que pensar como teria que viver no seu futuro e o que deveria fazer naquele instante para tudo se tornar real.
Seus novos colegas preenchidos por decisões já concebidas por outros, professores com a receita pronta de como fazer tudo perfeitamente para tomar esse trem. Beatriz deveria escolher uma profissão importante numa universidade importante e que fosse pública, principalmente.
Tenho informações preciosas que ela tentou se encaixar, tentou tomar o trem, mas a sua inconformidade com a vida estabelecida lhe dava náusea e confusão, achava que em algum ponto nada daquilo fazia sentido. Apenas queria trabalhar, com ou sem passar por ritos acadêmicos, tendo profissões “grandiosas”, ela sabia que tinha que fazer da sua vida um encontro de si.
Ela me disse certa vez, segurando suas afirmações em suas próprias ideias, que, antigamente, as profissões, não tinham esse peso atual de uma profissão, não era estagnante, não causava uma inércia no ser. Já, nesses tempos, a profissão tem se tornado uma espécie de identidade imóvel, onde quando se escolhe algo a seguir, você escolhe a maneira como aquela profissão pensa, veste, se comporta, como anda e com quem anda.
Escolher a profissão é se desvincular um pouco de si para assumir uma identidade que era pré-estabelecida. Sua ideia não era irracional, não era algo improvável, fazia sentido o que dizia.
Talvez a demora de ter escolhido uma profissão, ou melhor, ter se acostumado a dedicar um tempo para se tornar uma profissional, foi pela tentativa de desvincular-se dos quereres alheios sobre a sua vida e tentativa de buscar mais de si, buscar os cuidados de si.
Quando Beatriz me contou que já tinha trabalhado num restaurante e, um de seus ofícios, era circular parte no caixa, parte na copa, parte anotando e entregando pedidos, confessou-me o quanto gostava de repetir, o quanto gostava de fazer as mesmas tarefas diferentemente; como ouvia as conversas atentamente dos clientes, quem estava por lá novamente ou quem frequentava pouco, quais as relações apareciam.
E quando foi me detalhando o jeito que preparava o suco no restaurante, a maneira que atendia os clientes, como pensava em montar a bebida mais fresca ou quando me contou como abordava as pessoas na rua para entregar um panfleto (outra forma laboral que teve). Como enxergava o que fazia, independente o que fosse, estar em processo laboral fazia sentido, dava autonomia e sua autoestima era saciada com sentido, no entanto, o que me espantou foi que tudo que me dizia versava com o poder do cuidado que tinha para com o outro, talvez sempre tenha tido o cuidado.
O tempo de Beatriz sempre foi outro, se fazia uma saltimbanca do tempo, uma origamista que tinha em suas mãos a dobradura perfeita de um tempo, esse tempo, que sempre foi o tempo do cuidado.
No restaurante ela sabia qual era sua posição, praticamente uma intercessora, alguém que não se fazia durar nas relações, mas que fazia o melhor suco possível para aqueles que por ali se encontravam.
Beatriz fazia desse tempo laboral a fuga do cotidiano repetitivo. Não a fuga pejorativa que às vezes essa palavra carrega, mas uma fuga que faz ir além, que faz romper com o “agora”, que a faz ser (re)inserida na própria existência. Ora sentia transportada para um pub em outro lugar do mundo, onde sua tarefa era fazer as bebidas, ora ficava a planejar bebidas novas e toda uma arquitetura de sabores.
O tempo para Beatriz durante o trabalho, era um fluxo, não mais o tempo domado pelo relógio, mas um tempo dilatado que ocupava todo o ambiente, das mesas à copa, do caixa às conversas.
Sua história sobre o sentido da vida, onde o tempo percorre o processo laboral, não importando o quê, mas inserido nesse processo, o sentido se amplifica e alimenta seu espírito. Talvez, por isso, uma de suas práticas laborais preferidas é fazer crochê e um dos primeiros presentes que ganhei dela, foi um boneco de crochê, delicadamente feito, um processo laboral de cuidado.
Sei que Beatriz pouco foi arrastada por essas avalanches (ditatoriais de como se deve viver), não digo que nada a capturou durante todo esse processo de descobertas de si, de buscas, de constatações, mas o que a capturou, ela fez de ferramenta para realinhar a sua vida.
Não colocar em ordem, não colocar sua vida alinhada a algo, mas realinhar com linhas de crochê, onde se é possível sempre crochetar e desfazer se for necessário, assim como sua querida avó lhe ensinou uma vez: entre a percepção de seus próprios sentimentos até o fazer bonecos de crochê, ela aprendeu que para se viver uma vida com sentido é preciso estar em movimento como uma linha que se entrelaça, alinhada para poder desalinhar, como um nó de crochê, se for preciso.




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