O esquecer de uma criança

Certa vez, minha esposa me compartilhou uma informação que me deixou a refletir, então decidi compartilhar (claro, com autorização dela). Ela, como tantas e tantas outras pessoas, não se lembra de parte de sua infância. Antes dos 10 anos, não há um registro fiel, a não ser por fotografias e conversas com familiares. Esse tempo morreu para ela e tantas outras pessoas? Esse tempo é ‘morrível’? Como esse tempo morre em nós?
Pode-se não lembrar da infância, pode haver a tal amnésia infantil, causada pelos constantes processos estruturais do cérebro da criança, mas algo sempre gruda. Na verdade, por aqui, escrevo algo que vai além dessa amnésia, não se trata disso, e também não estou a escrever sobre mecanismos de defesa freudianos, não. Quando falamos em esquecimento, muitos se remetem ao período cronológico da infância, talvez esquecemos desse período da vida humana que vai do nascimento até mais ou menos os 12 anos, muitos esquecem o período, não de ser criança.
A criança invade de maneira sutil toda epiderme adulta, contamina, nos faz rir, talvez o riso seja herança mais notória de um tempo de criança, como uma superfície de uma crosta enrugada que, ao ser tocada, faz o riso brotar como gramíneas. Falo de um tempo que percorre o corpo, independentemente do tempo que se passou, passa e/ou passará.
O mistério, nada surpreendente, é que o tempo, esse esquecido, às vezes, se fez esquecido para perdurar na carne. Se faz esquecido para poder brincar com cada célula do corpo, com cada poro. O esquecimento é ferramenta para se fazer durar, pois fazer durar é se fazer real enquanto se pode ser alguma coisa.
Se fosse pensar no tempo da infância, não me prenderia ao cronológico, mas como se o tempo fosse um registro diário de realidade que atravessa o corpo, que acumula vozes presas nos ouvidos, imagens atadas aos olhos, perfumes derramados no nariz. Toda uma costura delicadamente feita por uma costureira: o esquecimento.
O tempo é o que tece nossos encontros. O brincar de uma criança com um carrinho é um lapso de eternidade ‘morrível’. O tempo de criança é reencarnado no adulto como um espírito à parte, como se não fosse parte dele, mas é. Talvez o espírito não tenha sido antes um corpo vivo que agora, morto, se tornou plasma, mas sim uma força adormecida que desperta com espasmos e suspiros pela beleza, quando há encontro com a sutileza.
A criança, o tempo-espaço, ou simplesmente o tempo de criança, não é um grande aterro à deriva, um lugar de paragens. A palavra “criança” já carrega muitos conceitos imbricados. Ela vai além de um substantivo ou adjetivo. Como uma ironia do destino, o esquecimento também passa por aqui e nos faz esquecer, ou algo nos impede de seguir esse caminho. No entanto, a etimologia da palavra "criança" vem do verbo "criar", e o sufixo indica um determinante, um resultado final de uma ação, como o fim de uma criação.
A própria palavra "criança" já é carregada de significado e tem força motora suficiente para percorrer linhas imperceptíveis, causando fissuras em qualquer paragem. A criança foge do estado, da forma, do conglomerado do que é registrado em livros acadêmicos, dicionários e tudo que a cerca e a encerra.
Digo mais: criança e tempo estão numa eterna dança, uma valsa celeste de constelações ainda (des)conhecidas. Esquecer é o verbo de viver criança. Nossa pele, que sente o mundo e experimenta a vida em acontecimento, “guarda” o tempo de criança como algo precioso. Se hoje somos fontes criadores, se nos movemos no mundo inóspito, é porque a criança em nós permite que tecemos linhas mais suaves de um novelo robusto.
Esquecer para criar; esquecer para se tornar criança. Pensar no que se esqueceu já é uma memória ativada, um grão de areia que irrita os olhos da memória, um cisco que nos faz lembrar que há algo ali, naquela passagem que quer ser eventualmente esquecido para ser lembrado de outras formas, longe do que entendemos de memória. Esquecer antes de lembrar, antes de ser. O passado nunca se vai; ele sempre é algo, tentando permanecer, repetindo-se de forma diferente todo dia o que foi, quase que preso no presente. Esse movimento de ser um outro numa dança consigo mesmo é a coexistência do presente que reside em sua efemeridade e transitoriedade.
Outro fenômeno que acontece é a memória inventada, principalmente, minha esposa a tem. Memória através de fotografias e falas, conectando e formando memórias. A memória inventada pode salvar uma vida, mas quase sempre nossa memória é atravessada por tantas forças que se torna inventada, criada. Isso não é ruim, faz parte da criança. Lembrar é desimportante, esquecer é se conectar ao tempo que nos habita, que percorre as vísceras.
Para acessar esse tempo não se usa a memória, mas outras partes do corpo, exatamente como um brincar inocente de uma criança, um correr dentro de um parque, um escalar, um balançar-se, um escorregar, um movimento dentro de um labirinto, essa criança que nos importa. Essa é a nossa ferramenta. Ferramenta ativa é esquecer, ou melhor, é inventar de esquecer e inventar de lembrar (vice-versa), inventar uma memória. Não se inventa para fugir, mas para ir mais longe.
Quando pego carona nas linhas de minha esposa, essas linhas de esquecimentos, que são costuradas por uma costureira sensorial: vejo pequeno, é árduo, tento, percebo as nuances, o que faz as bricolagens, como me conecto e desconecto e como resulta em algo totalmente novo (nossas maneiras de estar um com o outro), sinto a criança que se efetua incansavelmente na minha esposa, articula e se estende durante o dia nos olhares, no pensamento criativo, nas mensagens que envia, nos dizeres, na maneira que chega do trabalho, o jeito que toca os cachorros, no jeito que deita no sofá, como estica sua perna e a entrega para mim, como um ato singelo para eu lhe prover algum tipo de carinho. É a criança potente, é criadora de mundos e tempos, de sentidos. A língua que ela utiliza é sutil, é imensamente forte, incansavelmente forte. Suas liturgias do dia a dia não matam o tempo de criança, não.
O intuito não é enxergar a criança nossa ou de outra pessoa, é da maneira mais pele com pele, é a maneira mais orgiástica e alegre, num encontro singular. É sentir a nossa e de outra pessoa, é perceber simplesmente pela pele, pela música, pelo olhar (nosso) do outro, ali mora toda uma ética construída pelo esquecimento, que brota através de uma criança miúda, por instantes únicos de criança, como um eterno coro que diz que “esquecer para se efetuar na vida como força potente”.
Enfim, a todos que se esqueceram ou a todos que esquecem, deixo esse singelo texto para lerem e mergulharem no esquecimento. Para minha querida esposa, que se esqueceu de boa parte de sua infância, mas que me lembra (vigorosamente) de cada erro que cometi (e os que vou cometer, já peço desculpas), tenha esse texto como um abraço carinhoso à sua criança, e saiba que esquecer é um privilégio para aqueles que lembram.




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