top of page

Tempo, corpo e clínica psicológica

Foto do escritor: Pensar Rizoma
Pensar Rizoma
14 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 17 de set.

Tique-taque, tique-taque. 


Nas engrenagens de um relógio preso no passado ou de outro mergulhado em tecnologia, ou melhor, em instantes de futuro ou atualizações de relógios inteligentes. Tique-taque. 


Relógio preso no pulso, relógio em cima da cômoda da sala ou relógio do computador. Tique-taque cronometrado.


Entre cinquenta minutos e uma hora, há um tempo que não se pode contabilizar nem capturar dentro de uma sessão de psicoterapia.


Esse tempo escapa.


Escorrega. Transborda. 


Esse tempo não caminha em linha reta nem se organiza pela lógica de passado, presente e futuro.


O tempo clínico é feito de dobras, retornos, suspensões e intensidades. É o tempo vivido, atravessado por afetos, memórias e possibilidades que se modificam a cada encontro. E onde esse tempo acontece? Ele se dá na experiência encarnada do sujeito que sente, percebe e é afetado pelo mundo.


Quando lemos Marcel Proust, percebemos que o tempo não é submisso à cronologia. Em Em busca do tempo perdido, especialmente no episódio da madeleine em No caminho de Swann, a memória emerge não pela vontade racional, mas pelo corpo e pelos afetos. Um gosto, um cheiro ou um gesto são suficientes para fazer o passado irromper no presente com força total. O passado não está atrás de nós, mas no agora. Ele persiste, atualizando-se de maneira imprevisível.


A clínica reconhece isso quando compreende que não basta narrar a própria história. É preciso deslocar afetos, reorganizar experiências e criar novos modos de habitar o tempo vivido. 


Dessa maneira, o passado não se resolve. Ele se reinventa no presente para criar futuros. 


Um dos aspectos que pode parecer torturante ou tedioso para um sujeito é que, cada vez que ele fala de si ou de um problema de seu passado, não recupera um passado intacto, mas o produz novamente sob outras condições, com outros afetos e outros sentidos. A memória, longe de ser um arquivo, é um campo de criação.


O passado não é um depósito de fatos, um acúmulo ao qual podemos retornar para restaurar uma verdade perdida, como em uma pasta de computador ou no próprio celular.


Ele simplesmente coexiste com o presente.


A memória não recupera, ela produz.


Cada lembrança é uma montagem, uma edição, uma variação. Como no cinema, nunca assistimos ao mesmo filme duas vezes, mesmo quando as imagens parecem as mesmas.


Aqui, tomamos emprestada uma ideia de Deleuze. A noção de imagem-tempo rompe com a ideia de um tempo linear e causal. O presente não é o sucessor do passado. Ele o dobra, o rearticula e o faz vibrar de outro modo. O passado não passa. Ele insiste, mas sempre de maneira deslocada, atravessada por novos encontros e novas forças.


Nesse sentido, a repetição não é um retorno do mesmo, mas produção de diferença. 


Repetir é diferir.


Aprofundando ainda mais a noção temporal na clínica, não se pode deixar o corpo fora dessa discussão. Tempo e corpo são conceitos que se cruzam e se alimentam entre si.


O tempo não acontece fora do corpo. Merleau-Ponty oferece um solo fenomenológico para

pensar essa relação ao afirmar que o corpo não está no tempo como um objeto que ocupa uma posição em uma linha cronológica. O corpo é tempo em ato. Ele carrega o passado como hábito, como gesto sedimentado, como estilo de presença.


O corpo lembra antes mesmo de pensar. 


O passado se inscreve na postura, no ritmo, no modo de olhar e de se mover no mundo.


Merleau-Ponty também compreende que o presente não é simplesmente um instante isolado, mas um campo de presença onde passado e futuro se entrelaçam. Ao perceber algo, o corpo já antecipa desdobramentos possíveis, já se projeta em direções futuras. O futuro não é um ponto distante. Ele é uma orientação implícita no gesto, no desejo, na ação. 


O corpo é sempre um corpo em devir, em movimento.


Não temos, então, uma somatória de instantes chamada tempo vivido. Ao contrário, temos o tempo como uma espessura contínua sustentada pelo corpo. Cada experiência carrega vestígios do que foi e aponta para aquilo que ainda pode vir a ser. 


Assim, o tempo não é apenas cronometrado nem definido pela medição.


O tempo é habitado.


Pensando na clínica psicológica, essa concepção transforma profundamente a escuta. As narrativas verbais não são o único lugar onde o sofrimento aparece. Ele também surge nos modos corporais de existir. Silêncios, tensões, ritmos de fala, posturas e repetições dizem tanto quanto as palavras. 


O tempo do sofrimento é um tempo incorporado, inscrito em hábitos que se repetem sem que o sujeito saiba exatamente por quê.


Há um compromisso ético que precisamos assumir:


Abandonar a fantasia de resolver definitivamente o passado.


Reconhecer que o sujeito não é um problema a ser solucionado, mas um processo em curso. Dessa maneira, o psicoterapeuta não busca fechar a história, mas sustentar sua abertura. 


Quando o paciente se senta no sofá ou liga a câmera para um atendimento e começa a falar, ele não está apenas relatando fatos. Ele está produzindo realidade. A fala reorganiza o tempo vivido e possibilita novas montagens da experiência.


O tempo clínico é o tempo da reorganização de afetos e narrativas. Longe de ser um tempo para harmonizar o sujeito, ele serve para deslocá-lo e movimentá-lo. Trata-se de tecer uma linha do possível, permitir que novos arranjos surjam ou se tornem possíveis e que emerjam outros modos de relação com o corpo, com o desejo, com o outro e com o tempo.


A intervenção clínica não fecha sentidos. Ela cria zonas de indeterminação onde algo novo pode nascer.


Talvez trabalhar na clínica, seja no atendimento presencial ou on-line, seja trabalhar com o inacabado, o não resolvido, aquilo que ainda não encontrou forma. 


Dessa maneira, o espaço clínico torna-se um lugar onde o tempo pode ser reapropriado. Um espaço em que o sujeito não é pressionado a acelerar, resolver ou performar uma melhora imediata, mas pode sustentar o ritmo necessário para que algo se transforme de fato. 


O tempo clínico não corrige o passado. Ele cria condições para que o passado se reinvente no presente e abra futuros possíveis.


Talvez seja essa a potência maior da clínica.


Não prometer fechamento, mas sustentar movimento.


Não oferecer soluções finais, mas acompanhar processos. 


Não normalizar o tempo do sujeito, mas permitir que ele invente seus próprios ritmos de e existência, no corpo e no mundo.


Comentários


bottom of page