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Casa

Foto do escritor: Pensar Rizoma
Pensar Rizoma
24 de set.
2 min de leitura

Atualizado: há 5 dias


No calendário, constava sete de julho de 1999. O relógio vetusto, suspenso na parede da cozinha, marcava dez para as quatro da tarde. O céu queimava lentamente, como a cinza de um cigarro esquecido num cinzeiro de cerâmica desgastada. Ainda sinto o mesmo cheiro vindo do jardim bem cuidado. Estou na mesma casa de madeira rubra, com o telhado alaranjado que se funde ao limo, em contraste com as copas verdejantes das árvores.


Vivo neste dia há vinte e sete anos. Não sei por quê, mas sempre retorno a ele, e tudo permanece no mesmo lugar. Da janela da esquerda, observo o mesmo menino, preso à sua infância, brincando como no seu tempo de criança. Corre de um lado para o outro, sozinho, deixando pegadas sobre a grama levemente orvalhada.


Depois, senta-se na escada de três degraus da porta da frente. Olha para o arbusto e para as flores que se ramificam pela lateral da casa, quase alcançando o batente da porta. Observa-as como se cada pétala exalasse seu último suspiro. Ao mesmo tempo, acompanha uma joaninha atravessar lentamente uma folha caída sobre o segundo degrau.


Meu olhar parece arquitetado com rigor matemático, condenado a percorrer tudo aquilo que um dia vi e revi neste lugar. Nada parece capaz de escapar ao que já foi vivido. Gostaria que fosse apenas um sonho, ou uma noite imersa em um pesadelo que paira sobre minha alma. Mas não. Volto para cá como quem visita a casa de um parente, de um velho amigo. Estou severamente preso a este lugar.


De repente, uma ventania agarra os cabelos lisos do menino, bagunçando-os. As folhas secas bailam para longe; as copas se agitam, assobiando em uníssono. Era o aviso, o mesmo aviso de sempre: meu tempo estava quase se esvaindo naquele lugar, junto à tarde que se rompia para dar lugar ao nascimento da noite.


Olho para o relógio agarrado ao meu pulso esquerdo, sincronizado ao sopro do lado de fora. Dez para as seis, no hiato quase sensorial entre o dia e a noite. Meu corpo se desloca para o cômodo dos fundos, um quarto vazio, onde a poeira abraçava os poucos móveis que havia ali. Um espelho enferrujado reflete o olhar de vinte e sete anos do silêncio incompreendido do porquê.


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